animal-testing-cage

A libertação dos beagles utilizados pelo Instituto Royal não só mudou a vida daqueles cães, como também teve importância histórica por chamar atenção da sociedade para a experimentação em animais, amplamente praticada no país e no mundo. O tema é debatido há décadas entre os ativistas da causa, mas pela primeira vez foi manchete nacional o que permitiu expandir a discussão para uma parcela maior da população.

Os testes em animais são realizados nas indústrias farmacêutica e cosmética, além de diversas universidades de medicina e veterinária ainda utilizarem animais vivos nas aulas de técnicas cirúrgicas, fisiologia, etc (questão que será abordada em um próximo post). Os animais são privados de sua liberdade, vivem em espaços pequenos e fechados, sem ar natural e são tratados como objetos de estudo. Muitos experimentos são feitos sem anestesia para não interferir nos resultados.

Alguns exemplos de testes de cosméticos são: corrosão, impacto dos raios ultravioleta, irritação nos olhos e nas mucosas. Pesquisas para medicamentos vão desde cães que aspiram fumaça para que depois sejam analisados os efeitos do tabaco, macacos que são contaminados com hepatite entre outras doenças até animais que tem sua caixa craniana aberta para que eletrodos sejam implantados diretamente em seus cérebros nos estudos neurológicos. Mas, segundo os cientistas, as cobaias são muito bem tratadas.

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As indústrias dizem que testam porque a legislação exige, mas a legislação só existe por concordância das mesmas. O discurso científico é que esta é a única maneira de assegurar as pessoas em relação aos produtos que consomem. Segundo o biólogo Sérgio Greif,tais testes não previnem prejuízos a saúde humana, pelo contrário, muitos medicamentos são colocados no mercado e prejudicam a população. Os testes evitam que as empresas sofram processos em caso de resultados imprevistos já que podem alegar que cumpriram com o protocolo necessário.

Sérgio é defensor do uso de métodos substitutivos e é a favor da abolição da utilização de animais. “Os cientistas usam seus títulos para expressarem o interesse de uma classe como se fosse o interesse de toda a humanidade”, afirma. Muitos medicamentos são comercializados e depois de apresentarem problemas saem do mercado. Nos Estados Unidos, por exemplo, cem mil pessoas morrem todo ano devido ao uso de remédios prescritos por seus médicos.

“Os cientistas usam seus títulos para expressarem o interesse de uma classe como se fosse o interesse de toda a humanidade”

Sérgio contou, em entrevista ao programa de rádio Amazônia Brasileira, que foi chamado pelo Ministério Público para fazer uma vistoria no Instituto Royal antes dos acontecimentos do dia 18 de outubro. A visita foi agendada e apesar de ser contra qualquer uso de animais o biólogo foi até o laboratório.

Notou um cheiro fétido pois o chão estava cheio de fezes e as jaulas suspensas estavam com muitos cães, além de sujas. Ele relatou que não teve trânsito livre, estava sempre acompanhado e teve de duas a três horas para analisar uma área imensa. O Instituto Royal é uma empresa particular que realiza testes para clientes que a contratam, mas recebe verbas públicas do Governo para pesquisas. Porque fazem tudo com as portas trancafiadas e não oferecem transparência à população?

A ONG de proteção animal Instituto Nina Rosa produziu em 2006 o documentário Não Matarás: os animais e os homens nos bastidores da ciência. O filme trata da utilização de animais vivos na educação, testes em cosméticos e pesquisas. Pessoas se infiltraram em empresas para registrar a crueldade praticada. Mas capturar imagens internas está cada vez mais difícil pois os laboratórios vigiam seus funcionários com câmeras, checam seus antecedentes e se asseguram de todas as maneiras de que nada será divulgado.

Muitas empresas conhecidas não usam animais o que demonstra o quanto esta técnica é ultrapassada e inadequada. Trata-se de fazer uma opção já que métodos substitutivos existem, basta escolher quais utilizar.Na Europa os produtos livres de crueldade vêm com selo indicativo na embalagem. O que deveria ser exigido pela população também aqui no Brasil, pois a ANVISA aceita testes alternativos.

Um exemplo de selo cruelty free utilizado na Europa

Um exemplo de selo cruelty free utilizado na Europa

A empresa de cosméticos Lush, do Reino Unido, iniciou a forte campanha Fighting Animal Testing. Criaram um site específico para debater o assunto e realizaram performances em suas filiais no mundo inteiro. No site eles explicam que a lei que proíbe testes em animais para cosméticos em toda a União Européia (proíbe inclusive a importação de produtos testados em animais) foi aprovada em 1993. A indústria teve 5 anos para se preparar, porém o forte lobby dos empresários conseguiu adiar a aplicação da lei de 1998 para 2000, 2002 e 2013. Agora estão pedindo mais 10 anos. Ou seja, desde que foi criada a lei, serão 30 anos de atraso.

Performance realizada pela empresa Lush

Performance realizada pela empresa Lush

No Brasil, a Lei Arouca de 2008 foi criada para regulamentar os experimentos realizados. Nesta lei consta a criação do CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) responsável pela verificação de maus-tratos. Ativistas protestaram fortemente contra, por ser uma lei permissiva que legitima ainda mais esta prática. Os laboratórios quando são contestados sempre afirmam que está tudo de acordo com o CONCEA, o que não significa que os animais são bem tratados.

Em relação a tudo que aconteceu nos últimos dias Sérgio concluiu: “Eu entendo que este episódio tem muita relação com o momento que a gente vive. O clamor popular pede para que a experimentação animal seja abolida. Então não podemos manter aquele discurso batido e cansativo que se a gente deixar de experimentar em animais haverá um retrocesso. Este discurso é falso e os cientistas falam assim por interesse próprio e não da ciência. Isto é crueldade e atende a interesses específicos de uma parcela da população que não somos nós. O Ministério da Saúde, o Ministério da Ciência e Tecnologia, as instituições de pesquisa e as universidades tem que fazer um movimento nesse sentido que as pessoas querem. Porque o fim desta prática vai acontecer e talvez a gente consiga muito mais cedo do que as pessoas pensavam. É muito triste ver os cientistas com este discurso que ninguém acredita mais. Fica como se estivessem defendendo uma lenda, uma religião que não pode mudar e a gente sabe que pode.”

Algumas marcas conhecidas:

NÃO testam: ADCOS, O Boticário, Quem Disse Berenice, Natura, Contém 1g, Éh Cosméticos, Est, Farmaervas, Ypê, Jequiti, Granado.

TESTAM: Revlon, Procter & Gamble, Unilever, Estée Lauder, L’Occitane, M.A.C Cosmetics (Estée Lauder), Mary Kay, Veet, Vichy (L’Oreal), Dove (Unilever), Oral B, Maybelline (L’Oreal), Avon, Johnson & Johnson, Lancôme (L’Oreal), Bic, LaRoche Posay (L’Oreal), Kerastase (L’Oreal), Neutrogena (Johnson & Johnson)

LISTAS:

Go Cruelty Free (produtos de vários países)

PETA (produtos importados)

PEA (produtos nacionais) NÃO testam

(Por Stephanie Lourenço)

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2 thoughts on “(1,2,3) testando: os bastidores da ciência que explora os animais

  1. Marilia Pasculli disse:

    EXCELENTE POST! Muito esclarecedor

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