Um dos cães extremamente magros de Caratinga (Foto: TV Super Canal)

Um dos cães extremamente magros de Caratinga (Foto: TV Super Canal)

Denúncias feitas contra canis municipais são frequentes no Brasil. Esses estabelecimentos – que, em tese, são responsáveis por retirar animais das ruas e controlar a natalidade – quase sempre não oferecem condições adequadas para os cães e gatos alojados. Sequer chegam perto de terem vagas suficientes para os animais, que acabam destinados ao confinamento em locais superlotados, minúsculos e sujos, sem receberem cuidados básicos para a sobrevivência e, finalmente, encaminhados para a morte, ainda comumente provocada por meios terríveis, com muito sofrimento.

Na opinião da veterinária Amélia Oliveira, a burocracia e a falta de vontade política, por parte dos profissionais envolvidos e contratados para trabalharem nesses canis, são os maiores empecilhos para que um programa sério de controle de natalidade seja desenvolvido e, consequentemente, esses lugares não fiquem parecidos campos de concentração.

Cadáver em decomposição no canil de Manhuaçu

Cadáver em decomposição no canil de Manhuaçu

“É necessário que profissionais competentes, com vontade de trabalhar e, principalmente, que gostem do que fazem, sejam contratados e colocados à frente da administração do canil. Mas as prefeituras, ou seja, os governantes, não pensam em selecionar pessoal e muito menos em capacitar esses funcionários para o trabalho”, afirma Amélia que junto de um grupo de colegas de profissão desenvolve o projeto Veterinários na Estrada, que viaja para cidades pequenas com o objetivo de desenvolver mutirões de castração e oferecer consultas médicas.

Uma situação de negligência e maus-tratos que atualmente gera revolta na população é o caso do canil municipal de Manhuaçu (MG). Defensores da causa animal encontraram no local diversos cadáveres em estado de decomposição avançada e alguns que tinham sido descartados recentemente. Existem várias denúncias contra o extermínio dos cães de Manhuaçu, além da petição com mais de 11 mil assinaturas, que exige o fechamento do local e a punição aos responsáveis.

Também em Minas Gerais, em Caratinga, um canil foi recentemente desativado por tempo indeterminado por não oferecer condições adequadas aos animais. Cenas registradas pelas câmeras da TV Super Canal flagraram cães doentes precisando de cuidados, vagando em meio à sujeira, no chão cheio de fezes. O vídeo mostrou um filhote se alimentando de um animal morto em cima de uma grama e também registrou cadáveres dentro de um saco plástico pendurado em uma grade. Os sobreviventes foram levados para a Associação Protetora dos Animais de Sapucaia – a Latemia.

Cães mortos foram encontrados em saco no canil de Caratinga (Foto: TV Super Canal)

Cães mortos foram encontrados em saco no canil de Caratinga (Foto: TV Super Canal)

Este tipo de cenário é recorrente no país. O centro de controle de zoonoses (CCZ) de São Paulo já foi alvo de denúncias em 2009, pelo vereador Roberto Tripoli (PV) e também em 2011 pela Rede Record. Segundo reportagem da emissora, a prefeitura teve 14 milhões de reais disponíveis em 2010 e nada foi feito devido à ingerência e à falta de competência dos envolvidos. Imagens registraram o estado dos 135 canis individuais: minúsculos, escuros, sem luz natural. Segundo relatos, os cubículos eram lavados sem que os animais fossem retirados, e além disso, muitos cães aparentavam estar doentes e estressados.

Jaulas do CCZ de São Paulo em 2009 (Foto: Regina Macedo )

Jaulas do CCZ de São Paulo em 2009 (Foto: Regina Macedo )

Outro exemplo de verba mal aplicada é o episódio que aconteceu na cidade de Nepomuceno (MG), onde Amélia mora. Segundo a veterinária, o governo federal enviou a quantia de R$87.198,27 inicialmente, para a construção de um canil. A princípio toda a população ficou entusiasmada, pois apesar de nunca terem feito nada em prol da proteção animal na cidade, muitos moradores se preocupam com esta questão. Mas o serviço não foi colocado em prática: “o canil está localizado em local ermo, a 30 metros do leito de um rio, já foi vandalizado e furtado duas vezes. Fiação elétrica, torneiras, pias foram roubadas. Mas o que ouvimos do Sr. Prefeito nos espantou muito. Ele afirmou que é melhor e mais vantajoso repor os materiais que foram furtados, do que colocar o canil para funcionar”, diz.

Canil de Nepomuceno (Foto: Amélia Oliveira)

Canil de Nepomuceno (Foto: Amélia Oliveira)

Mas a veterinária afirma que, apesar do alto índice de descaso, existem canis municipais, que com muita luta, muita dor de cabeça e muita insistência, hoje, desenvolvem excelente trabalho em todas as áreas, tanto na educação, como na adoção responsável, no atendimento clínico e na castração. “Esses profissionais assimilaram que nem tudo é material e principalmente, aprenderam a valorizar e a respeitar a vida, seja ela do tamanho que for e quantas patas tiver”, concluiu.

Em 2003, a ação civil pública de uma ONG paralisou a matança de animais promovida no canil municipal de Florianópolis. O fim do extermínio só foi possível pela via judicial, com uma liminar concedida pela Justiça Federal. Neste caso, a cultura da matança era tão forte que até outras ONGs de proteção animal da cidade decidiram a favor do assassinato dos animais que estavam abrigados no canil, mesmo antes de algum esforço significativo para encaminhar suas adoções. E a situação não evoluiu muito nos canis pelo país desde então.

Isto acontece porque os centros de controle de zoonoses são órgãos criados para preservar a saúde humana. Não faz parte da cultura das pessoas que trabalham neles cuidar de animais, pensar em respeitá-los e, menos ainda, defender seus interesses. Pelo contrário, a visão antropocêntrica é forte e a imoral e equivocada matança de animais é vista com naturalidade na maior parte destes lugares. Em geral, os profissionais sequer estão preparados tecnicamente para agir de outra maneira. A lógica do extermínio está impregnada por todos os cantos, dissimulada sob o eufemismo da “eutanásia”.

(Por Stephanie Lourenço e Maurício Varallo)

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