(Foto: Coleção fotoetnográfica do Museu do Estado de Pernambuco)

(Foto: Coleção fotoetnográfica do Museu do Estado de Pernambuco)

Os cachorros, trazidos ao Brasil pelos europeus no século XVI, foram rapidamente adotados pelos indígenas para a defesa das tribos. Em caso de aproximação de guerreiros inimigos, de dia ou de noite, eles davam sinal e até atacavam os potenciais agressores. Esses animais foram integrados nas tribos como os primeiros mamíferos domésticos. Atualmente, muitos deles são companheiros dos indígenas, relação tão íntima que ainda hoje é comum observar índias amamentarem cachorros em seus seios, segundo informações da National Geographic.

Apesar desse cenário não fazer parte da realidade em todas as tribos, o antropólogo Felipe Ferreira Vander Velden afirma que os Karitiana – povo de língua Tupi-Arikém de Rondônia – dizem que “cachorro é como filho”, destacando, assim, a relação de familiaridade que corta as fronteiras entre o humano e o não-humano. Os animais criados por eles assumem uma posição parecida com a das crianças: há um genuíno prazer na criação desses seres, no cuidado cotidiano com eles, prazer que, inclusive, porta dimensão estética, pois se diz que os animais de criação (como são chamados), como as crianças, “enfeitam a aldeia”, tornando-a agradável ao olhar de todos; há, ainda, a percepção de que esses seres cumprem um ciclo de vida tal qual o dos humanos: filhotes são mimados e protegidos, mas animais adultos devem portar-se como indivíduos autônomos e responsáveis, cuidando de suas próprias necessidades e desejos – da mesma forma que qualquer humano maduro. O cuidado com os animais é, sobretudo, de responsabilidade das mulheres.

Tribo Nambikwara cochilando com seu cachorro

Tribo Nambikwara cochilando com seu cachorro

Na Amazônia, os animais vivem em cumplicidade com crianças caboclas (Foto: Divulgação)

Na Amazônia, os animais vivem em cumplicidade com crianças caboclas (Foto: Divulgação)

Índia Apalai navega pelo rio Paru no Amapá com seu cão

Índia Apalai navega pelo rio Paru no Amapá com seu cão

Mulher Tapuia, de Albert Eckhout (1643) pintada no período da ocupação holandesa do Nordeste. A obra também pode sugerir a convivência e relação próxima existente entre índios e cães – introduzidos com a colonização – no sertão desde, pelo menos, o século XVII

Mulher Tapuia, de Albert Eckhout (1643) pintada no período da ocupação holandesa do Nordeste. A obra também pode sugerir a convivência e relação próxima existente entre índios e cães – introduzidos com a colonização – no sertão desde, pelo menos, o século XVII

Na Venezuela a história entre um cachorro e seu tutor no século XIX ficou conhecida na região e é compartilhada até hoje. Nevado, como era chamado o animal da raça mucuchíes, foi dado de presente a Simon Bolívar por um camponês, mas quem cuidava dele era um índio chamado Tinjacá. Nevado foi morto durante a batalha de Carabobo em 1821 e logo em seguida morreu seu tutor enquanto tentava resgatá-lo.

Monumento em homenagem a Nevado e seu tutor Tinjacá na Plaza Bolívar de Mucuchíes (Foto: Wikipedia)

Monumento em homenagem a Nevado e seu tutor Tinjacá na Plaza Bolívar de Mucuchíes (Foto: Wikipedia)

Nos EUA, a artista Grace Carpenter, nascida em 1865, pintou mais de 600 retratos da tribo Pomo – indígenas da região da Califórnia. As imagens mostram frequentemente a relação afetiva entre os índios e os cachorros, o que sugere a afinidade entre essas pessoas e seus animais.

“A Melancia” de Grace Carpenter

“A Melancia” de Grace Carpenter

“Baby Bunting” de Carpenter

“Baby Bunting” de Carpenter

“Bebê dormindo e cachorro”

“Bebê dormindo e cachorro”

“Greenie com dois filhotes amarelos”, também da artista

“Greenie com dois filhotes amarelos”, também da artista

(Por Stephanie Lourenço)

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